4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CNCTI) terminou na sexta-feira, dia 28, depois de três dias de debates sobre os rumos da política científica e tecnológica
Confiança pode ser considerada a palavra-chave da cerimônia de encerramento da 4ª CNCTI, introduzida sobretudo na palestra final do evento, a cargo do professor emérito do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP), Sergio Mascarenhas.
Aplaudido de pé ao final, Mascarenhas, presidente de honra da SBPC, destacou os avanços recentes da ciência brasileira para pedir confiança num futuro marcado por mais avanços. "O Brasil precisa planejar e fazer. Fazer cumprir a política de Estado e chegar aos 2,5% do PIB [Produto Interno Bruto] em investimentos [em ciência e tecnologia], sem contingenciamentos", afirmou.
"Mascarenhas é um jovem que há 50 anos tem um olhar para o futuro", destacou o secretário-geral da 4ª CNCTI, o também físico Luiz Davidovich, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Nos três dias de debates, os 3.574 participantes, entre representantes de universidades, institutos de pesquisa, organizações não governamentais, militares, empresas e governo, dividiram-se em sessões plenárias, temáticas e paralelas que apresentaram o estado da arte do desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro, críticas e sugestões sobre a organização da C&T nacional. A página do evento obteve mais de 39 mil acessos, de acordo com a organização, que transmitiu as plenárias pela internet.
Para o presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp, a conferência deu à comunidade científica a segurança de que o futuro da ciência brasileira é altamente promissor. "Entendemos que o nível foi excelente e compatível com a nova qualidade da ciência e tecnologia brasileiras", discursou Raupp na cerimônia de encerramento da 4ª CNCTI. "O futuro é altamente promissor".
O ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, se disse "muito satisfeito" com o evento.
Para Davidovich, a conferência não terminou no dia 28 de maio. O secretário-geral informou que, em breve, um documento preliminar com propostas será disponibilizado para consulta pública pela internet. O texto final será transformado no "Livro Azul da Ciência, Tecnologia e Inovação". "É um documento a ser feito com a sociedade", afirmou.
Segundo ele, a ciência brasileira deve focar um novo modelo de desenvolvimento. "Não é qualquer futuro [que desejamos]. Não queremos repetir erros e nem o atual padrão de consumo. O desenvolvimento social é o pressuposto de tudo", discursou.
A temática da educação - principalmente a importância da formação básica como pré-requisito para o avanço da ciência e tecnologia - mereceu destaque nos três dias de evento. Ela foi o ponto da fala de Raupp na sessão plenária "Educação de qualidade desde a primeira infância" - coordenador da sessão, o presidente da SBPC pediu "medidas emergenciais" para melhorar a educação básica brasileira.
A educação também foi citada nos discursos da abertura solene, na noite de quarta-feira, dia 26, quando o pronunciamento do ministro da Educação, Fernando Haddad, aparentemente não previsto no protocolo da cerimônia, foi uma exigência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Outro tema destacado nesta 4ª CNCTI - e novo para as discussões sobre política científica - foi a inclusão social. Vice-presidente da SBPC, Otávio Velho ressaltou a participação ativa de organizações não governamentais como uma das novidades desta edição da CNCTI. "A ciência e a tecnologia devem ser um bem comum", defendeu o representante de uma das ONGs presentes, Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análise Socioeconômica (Ibase).
Em seu discurso de encerramento, o secretário-geral, Davidovich, também tocou tangencialmente no tema, destacando a "incorporação de outros atores sociais" nos debates e prevendo que as próximas edições da CNCTI terão mais mulheres participando.
Críticas
A baixa presença da parcela feminina da ciência brasileira, visível a qualquer observador do encontro, foi apontada em público pela diretora da Divisão de Política Científica e Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), a moçambicana Lídia Brito. "O Brasil tem pesquisadoras do mais alto calibre, mas elas não estão visíveis", comentou Lídia em palestra na última Sessão Plenária da 4ª CNCTI, na sexta-feira, dia 28, no que foi seguida por aplausos de apoio.
Menos explícitas, mas também presentes, foram as críticas relacionadas ao modelo adotado na Conferência. Houve reclamações relativas à falta de grupos de trabalho e discussões diretas sobre o texto final a ser apresentado. Segundo alguns críticos ouvidos pelo JC, isso poderia refletir falta de democracia no planejamento do Livro Azul.
De acordo com Davidovich, elaborar um texto durante a conferência seria impossível, dado o grande número de presentes. "Além disso, o documento não seria representativo da sociedade. Tivemos milhares de participantes na conferência, mas eles não representam a totalidade da comunidade científica nacional. O documento preliminar será posto em consulta pública para que todos possam contribuir", reforçou.
(Jornal da Ciência)