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04/02/2010 - Mais verba para ciência e saúde
 


Proposta orçamentária de Barack Obama cria novas linhas de pesquisas e fundos

Embora uma nova missão espacial à Lua tenha ficado mais longe para os EUA, com a decisão da Casa Branca de cortar o Programa Constellation, os cientistas não têm motivos para reclamar da proposta orçamentária encaminhada anteontem pelo presidente Barack Obama ao Congresso. Nem mesmo o financiamento a novas pesquisas foi congelado, como temia-se que aconteceria devido à crise econômica.

Pelo contrário: o orçamento para a ciência inclui US$ 6 bilhões para o desenvolvimento de novas pesquisas ligadas ao câncer, o que possibilitará o estudo de 30 novas drogas, além de dobrar o número de vacinas disponíveis em testes clínicos até 2016.

Pesquisas genômicas também estão entre as prioridades de estudo, que podem ter impacto em todo o mundo.

A saúde também não foi esquecida fora das fronteiras americanas. Além de manter programas de George W. Bush para o combate a Aids, Obama lançou-se na busca por tratamento a doenças tropicais negligenciadas em todo o mundo, como a malária.

O Departamento de Estado, responsável pelo projeto Iniciativa Global da Saúde, terá US$ 8,5 bilhões para reduzir a mortalidade provocada por doenças em países em desenvolvimento - em 2010, esta verba será de US$ 7,8 bilhões. O texto da proposta orçamentária não estabelece as prioridades da Casa Branca no exterior.

Em vez de apontar os principais males a serem combatidos, pede "maiores esforços para reduzir a mortalidade de mães e crianças menores de cinco anos, evitar gestações indesejadas e trabalhar pela eliminação de algumas doenças tropicais negligenciadas".

Dentro dos EUA, os mais pobres também mereceram destaque. Obama quer criar centros de saúde para aumentar a rede de tratamento da população carente, inclusive os índios e outros habitantes que não têm seguro de saúde. Esta população é o foco do programa federal Medicaid, que, por seis meses, contará com US$ 25,5 bilhões. Nesse total, há recursos destinados especialmente para segurança alimentar (US$ 1,4 bi) e combate a Aids (US$ 3 bi).

Aids e malária entre as prioridades

Vice-presidente da Kaiser Family Foundation, Jennifer Kates, especialista em políticas de saúde, revelou que as áreas mais contempladas por investimentos no próximo ano fiscal são a saúde de crianças e suas mães, malária e planejamento familiar. O financiamento para políticas contra Aids também parece ter crescido, mas não tão rapidamente como na administração anterior.

Kates justifica as prioridades listadas apontando a existência de verbas reservadas para várias iniciativas: o Plano de Emergência Presidencial para o Alívio da Aids, a Iniciativa Presidencial para a Fome Global e a Segurança Alimentar, a Iniciativa Presidencial da Malária e para programas de desenvolvimento agrícola e nutrição.

O Instituto Nacional de Saúde (INS), que contará com US$ 32 bilhões em 2011, pretende mudar sua linha de pesquisas, priorizando aquelas que enfatizarem aplicações concretas. Assim, a instituição pretende participar mais ativamente da melhoria da saúde pública americana.

Trata-se de uma mudança significativa, considerando que boa parte dos projetos que recebem financiamento do INS acabam licenciados para que laboratórios e companhias de biotecnologia lancem novos produtos.

Segundo o orçamento de Obama, o INS vai "acelerar o progresso em pesquisa biomédica (...) focando em áreas prioritárias como genoma, pesquisa transversal, ciência de apoio à reforma do atendimento na saúde, saúde global e revigoramento da comunidade de pesquisa biomédica".

As diferentes propostas de tratamento sugeridas pelos estudos serão avaliados pela Agência de Pesquisa e Qualidade em Atendimento da Saúde. O órgão, responsável por fazer levantamentos comparativos, terá US$ 286 milhões no próximo ano fiscal, de acordo com a proposta orçamentária de Obama.

Entre as novidades do texto analisado pelo Congresso está uma reserva de US$ 222 milhões para pesquisas sobre o autismo, um distúrbio que afeta 1% das crianças americanas, segundo dados oficiais. A criação do fundo já havia sido anunciada por Obama no ano passado

Nasa vai se aliar a empresas privadas

Na proposta orçamentária para 2011, o presidente Barack Obama aumentou em US$ 6 bilhões o orçamento da Nasa (que, agora, terá US$ 19,6 bilhões), mas cancelou o Programa Constellation, idealizado por George W. Bush para levar o homem de volta ao satélite terrestre.

Com isso, ganham terreno, ao lado dos homens de roupas espaciais, os executivos de terno e gravata. Os novos pioneiros do espaço serão os comandantes de sete grandes corporações, que negociam com a Casa Branca como vão desenvolver programas comerciais em parceria com a Nasa.

Entre eles, há até mesmo surfistas da rede, como Jeff Bezos (Amazon) e Elon Musk (Paypal). Se a proposta orçamentária de Barack Obama for aprovada, serão eles os responsáveis por construir os foguetes e as naves espaciais para os futuros astronautas da Nasa.

Com o fim do projeto, também serão abandonadas as construções da cápsula Órion, a substituta dos ônibus espaciais, e dos foguetes Ares I (que levaria os astronautas até a órbita terrestre) e Ares V (usada para transporte de carga). A Nasa não terá meios para levar astronautas ao espaço.

Os EUA, assim, dependerão de "caronas" em veículos desenvolvidos por outros países. A inédita falta de autonomia americana será temporária - ninguém sabe exatamente quanto tempo vai durar, mas cogita-se até sete anos. Obama quer investir em empresas privadas para que elas assumam a construção de novos foguetes e ônibus espaciais.

O acirramento do trato comercial a essas operações provocou críticas de vários congressistas.

- Esta medida representa a destruição de nosso programa espacial. O Congresso não pode e não deve apoiá-la - condenou o senador republicano Richard Shelby, do Alabama.

Já o diretor da Nasa, Charles Bolden, comemorou a decisão da Casa Branca de transferir ao setor privado a responsabilidade pelo desenvolvimento de novos veículos de transporte de astronautas.

Para Bolden, a iniciativa fará com que a agência volte a inovar na busca por novas tecnologias

(O Globo, 3/2)

 
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